25.6.07

Soneto de Primavera

Já a velha magnólia se espreguiça
estendendo seus braços enflorados.
Saltitam andorinhas nos telhados.
A erva orvalhada cresce e viça.

O astro-rei, hasteado a meia adriça,
sobe ao trono aquecendo os namorados.
Comungam todos os seres extasiados
na sempre repetida festiva missa.

A força adormecida se renova
dos dons infinitos da Natureza
num velho embriagado burburinho.

E só os mortos que descansam na cova,
testemunhas da humana fraqueza,
insensíveis, escarnecem baixinho.

18.6.07

Traço

(Depois de Carlos Drummond de Andrade)

Há qualquer rasto que fica,
como um traço de avião,
da negra nuvem passageira
que passa no céu do Verão.
Há qualquer palavra que invoca
a débil contradição,
o "sim" que de súbito brota
do teu soletrado "não".

Há qualquer gume de faca
no teu olhar inocente,
como quem dá de presente
a arma com que nos mata.
Há qualquer água que arde
no fogo-fátuo secreto.
A angústia de fim de tarde
na mesa de um café deserto.

Há qualquer rosto distante
nas vitrines, nas paragens,
lagos de outras miragens
nos olhos do caminhante.
Há qualquer bicho que morde
no rubor dos teus lábios severos.
Há desejos brutos e feros
no ócio opulento de um Lorde.

Há qualquer frieza de mármore
na altura das tuas pernas,
lascivas colunas eternas
de um templo profanado.
Há qualquer voz que me fala
neste silêncio dorido.
Há qualquer dor que se cala
no peito do soldado ferido.

Há qualquer golpe de asa
num sonho alado que caia.
Há qualquer seixo da praia
que fica da maré vaza.
Há qualquer sal na ferida
lambida pelo tempo contado.
Há sempre um resto de vida
que vive do corpo enterrado.

13.6.07

O oitavo dia

O braço metalúrgico
penetra a floresta.
A mulher nasce bruta
e no seu ventre cirúrgico
correm rios de cicuta
que lhe ardem na testa.

Árvores de gelo seco
formam-se nas frágeis omoplatas
e a mão direita cai direita
sobre duas urnas exactas.

Não há surpresas.
Reis sem palácio no fim.
Homens negros, brancos de medo,
homens brancos, negros de dor.
Um barco centrifugador
navega ao som de um clarim
na manhã.
Ainda é cedo.

A esposa oxidada balança
sobre a terra e sobre o mar.
O carrão longirrostro arranca
e traz novos peixes de esperança
desoxigenada.
A mulher puxa a alavanca
devagar.
Não foi nada.

7.6.07

Sangue Vinho Seiva

Encarna o corpo.
Encorpa o copo.
O sangue singra.
A carne sangra
o altar de linho.
Gangrena o tempo
que refina o vinho
e o amor condena.

Das veias seiva
a árvore seiva
o sabor da chuva
velada ao vento,
e sorve o sangue,
que beija a terra,
pelos verdes lábios
da raíz unguento.

O corpo sangra
o sangue seiva
que a chuva lava
no tempo vento,
e mancha a terra,
o altar de linho,
a mão eterna
que derrama o vinho.